Solidariedade que vem de todos os lados
As dificuldades enfrentadas pelas famílias da Colônia Z3, Valverde, Novo Valverde e Pontal da Barra geraram e ainda geram uma grande e bonita rede de solidariedade. Estima-se que mais de 1300 casas tenham sido atingidas de alguma forma pelas águas, tendo ficado inundadas ou ilhadas, e mais de 700 pessoas já se envolveram, de alguma forma, para ajudar. Ao longo destas duas difíceis semanas, muita gente arregaçou as mangas e se colocou a serviço dos desamparados, fazendo doações de alimentos, materiais de higiene e limpeza, gente que remexeu nos armários e tirou aquelas roupas que não eram mais usadas e muitas, muitas pessoas que doam seu tempo para ajudar os que precisam, seja nos pontos de arrecadação das doações, junto ao Centro de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (CCFV) na Z3 ou diretamente no atendimento às vítimas dos alagamentos. Moradores da Colônia Z3 contam que a água invadiu as ruas e as casas de maneira muito rápida, enquanto muitos dormiam. Gabriel Viégas foi uma destas pessoas que se dispôs a ajudar desde as primeiras horas. “Ouvi o desespero das pessoas e saí pra rua ajudando a levantar móveis e tirar as pessoas de dentro das suas casas. Gosto do povo, gosto de ajudar, se eu não tivesse feito nada faltaria um pedaço de mim”, revelou, enquanto auxiliava na separação dos kits de limpeza que seus vizinhos estavam levando para as casas na tarde do dia 28. Viégas gravou um vídeo - que já tem mais de 115 mil acessos na internet - retratando a fúria das águas nos primeiros dias de alagamento, quando invadia a estrada e se unia ao banhado que costeia a entrada da Colônia dos pescadores. Na comunidade Santo Antônio, no Laranjal, a mobilização vem de servidores da prefeitura, de paroquianos e de muitos grupos que não têm envolvimento nem com igreja nem com o poder público, como é o caso de Jussara Carrion e Andrigo Luçardo, que é escoteiro. O padre Enéias Carniel conta que diariamente estes dois voluntários de dedicam com afinco na organização das doações. “Tenho vindo ajudar as pessoas, isso é uma das melhores sensações do mundo. Como dizia um dos nossos fundadores (do Escotismo), felicidade é saber fazer a felicidade dos outros. Este é o motivo de eu estar sempre aqui”, frisou Luçardo. Na SJSS cerca de 30 pessoas trabalham dia após dia, especialmente na organização de roupas que estão chegando, mas também na montagem dos kits que são enviados às áreas de alagamento. Os jovens da Uniforça, grupo jovem da Igreja Universal do Reino de Deus, atenderam ao convite de uma servidora da Secretaria e se colocaram a disposição. “Vem que está disposto a ajudar de verdade. De segunda a segunda, somos uns 20 aqui”, conta Gabi, uma das meninas voluntárias. A mobilização é tão grande que cerca de 700 voluntários já participaram de ações em um dos pontos de coleta. No total foram doados mais de cinco mil kits de alimentos e material de higiene e limpeza às famílias desabrigadas. Foram mais de 300 pessoas que passaram pelos abrigos oficiais ou outros, que também receberam as doações da comunidade pelotense. Muitos destes já retornaram para suas casas e outros tantos se deslocaram para residências de familiares, em Pelotas, ou a outras cidades como Bagé e Jaguarão. Instituições e sociedade civil ajudam desabrigados Diversas instituições e grupos da sociedade civil se organizam em busca de doações que fazem muita diferença para quem precisou deixar quase tudo para trás. O músico Matheus Torres, por exemplo, organizou um show beneficente com amigos artistas - The Woods, Dudu Freda (Be Livin’), César Lascano, Diablues, Shaka Bullets e Rock Medley - no dia 21 de outubro, no Mercado Central, com ponto de recolhimento de doações. Também muitos moradores mobilizados atuam por páginas e eventos no Facebook para arrecadar itens necessários aos desabrigados. Entre eles, está o evento “Chuva de doações: fazer o bem sem olhar a quem”, com mais de 3,6 mil confirmados e voluntários em cerca de 50 pontos que recebem doações. “A ideia era mobilizar as pessoas mais próximas, do meio que convivo, mas se tornou algo maior”, comentou a criadora da campanha online, Catiúcia Almeida de Souza. No mesmo site, o evento “Solidariedade: os animais também merecem” conta com mais de 2 mil confirmados e arrecada itens como água potável, papelão, ração e cobertas para animais que se perderam de seus donos ou foram abandonados. A Pousada Krolow, à avenida Senador Joaquim Augusto de Assumpção, 90, no Laranjal, está concedendo abrigo temporário a animais perdidos ou abandonados. Empresas também buscam formas de ajudar. A Follow Music House, casa de festas de Pelotas, instituiu o ingresso solidário para o evento que ocorreu no dia 24 – um 1kg de alimento não perecível ou 1 litro de água ou 1 produto de higiene; a Empresa Conquistadora disponibilizou um ônibus para arrecadar donativos e levá-los até as áreas afetadas; e a marca Arezzo transformou as lojas do Centro e do Shopping Pelotas em pontos de coleta. A comunidade acadêmica da UFPel também se mobilizou, recebendo doações em vários locais da instituição.