Movimento e inclusão: a prática de atividades físicas e acessibilidade na rotina de crianças com Transtorno do Espectro Autista
Nesta quinta-feira (2), é celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, que tem como objetivo promover debates sobre inclusão
A prática de exercícios físicos é recomendada desde a primeira infância, especialmente a partir de brincadeiras lúdicas e educativas. Os exercícios físicos e a infância costumam se encontrar em ambiente escolar, principalmente durante as aulas de educação física. Entretanto, para crianças autistas, a prática de exercícios físicos pode se tornar inviável.
Enquanto distúrbio do neurodesenvolvimento, o Transtorno do Espectro Autista afeta a comunicação e o funcionamento cerebral, mas não incapacita a prática de exercícios físicos. Conforme explica a psicopedagoga Istael Espinosa, as “crianças autistas ou neuroatípicas, muitas vezes, não encontram barreiras na atividade física em si, mas na forma como os ambientes e as propostas são organizados. Do ponto de vista sensorial, é comum que apresentem diferenças no processamento dos estímulos, o que faz com que situações comuns em práticas esportivas — como barulho intenso, luz forte, contato físico inesperado ou até o uso de determinados materiais — sejam percebidas como excessivas ou desconfortáveis”.
Outro aspecto fundamental para compreender as limitações de crianças autistas no esporte e na prática de exercícios físicos é a rigidez cognitiva. As noções de previsibilidade, falta de entendimento de códigos sociais e a socialização intensa também tornam a situação ainda mais desafiadora. Para Istael, também é importante destacar que o acúmulo de experiências negativas com atividades físicas prejudica a autoestima e o engajamento futuro.
Em uma realidade que pede alterações estruturais, as instituições escolares são as primeiras convocadas para liderar a mudança. “A escola tem que se adaptar a essa criança, e não as crianças se adaptarem a escola” declara Cátia Simone Barcelos, educadora física e doutora em educação, “ Os neuroatípicos sempre estiveram presentes na sociedade. Assim como lutamos pela consciência étnico-racial, precisamos também considerar a inclusão neuroatípica”. A educadora também aponta lacunas na formação de educadores físicos e professores quanto às adaptações necessárias, mas ressalta o compromisso da rede municipal em viabilizar o acolhimento e a inclusão. Atualmente, a prefeitura de Pelotas oferece formação continuada para professores do Atendimento Educacional Especializado e também para professores da toda a rede municipal, com base no decreto 12.686 sobre a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, de outubro de 2025.
Incentivar a prática de exercícios físicos é papel do ambiente escolar, mas também é papel das famílias. Segundo Istael Espinosa, o hábito precisa ser criado a partir de atividades prazerosas. “É importante respeitar o ritmo individual e valorizar pequenas conquistas. Muitas vezes, o caminho mais eficaz não é inserir a criança diretamente em um esporte estruturado, mas ampliar as oportunidades de movimento no cotidiano, a partir do que ela já demonstra prazer em fazer.” Ao reconhecer predileções e particularidades da criança, também é necessário minimizar a sobrecarga sensorial (excesso de barulho, luzes fortes, etc) e manter tudo sob a supervisão de um adulto compreensivo à essas particularidades.
Mais do que incentivar o exercício, estamos falando de criar condições para que essa criança se sinta capaz, segura e pertencente. Quando isso acontece, o movimento deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma experiência possível e significativa”, finaliza a psicopedagoga.
Esporte e inclusão para todos
A demanda por práticas educativas mais acolhedoras atravessa os limites do município. Nos dias 26 e 27 de março, Pelotas foi palco das atividades do projeto nacional Caravana do Esporte em uma edição especial com o tema “Esporte Educacional e Inclusão”. Criado em 2005 pelo Instituto Esporte e Educação, o projeto tem como objetivo democratizar a prática esportiva. As ações aconteceram no Colégio Municipal Pelotense e na EMEF Francisco Caruccio. O evento integrou a política de formação continuada da Secretaria Municipal de Educação, da Assessoria Pedagógica da Educação Física e da Assessoria de Projetos Externos.
A Caravana do esporte é uma iniciativa da ESPN em parceria com o Instituto Esporte e Educação, com chancela do UNICEF e tem seu financiamento garantido por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, já presente em diferentes municípios do Rio Grande do Sul. A iniciativa tem como objetivo promover, a partir do esporte educacional e de suas múltiplas possibilidades pedagógicas e inclusivas. Além disso, oferece formação continuada com ferramentas pedagógicas que apoiam educadores e gestores no fortalecimento de práticas de esporte educacional seguro e inclusivo nas escolas e nas comunidades.
Entre as atividades, foi ofertada a oficina “Esporte Educacional e Inclusão de Crianças Neurotípicas em Atividades Esportivas”, destinada aos docentes da rede. Também foram disponibilizadas 200 vagas para educadores, organizadas em quatro turmas de 50 participantes cada. Além da formação docente, o projeto também desenvolveu atividades com estudantes, atendendo cerca de 300 crianças e adolescentes em cada escola, nos turnos da manhã e da tarde.